sábado, 14 de fevereiro de 2015

Os Sobreviventes

Acabei de ler o conto “Os Sobreviventes”, de Caio Fernando Abreu; que maravilha! Quanta teoria! quanto estilo! quanta beleza! Quanta mistura de sensações e sentimentos e sabores e sei lá o quê! As passagens do texto, por si só, nos revelam mil coisas; o leitor que, ao acaso, escolhesse um trecho qualquer, teria material para refletir durante horas. Por exemplo: “Sri Lanka, quem sabe? ela me pergunta, morena e ferina, e eu respondo por que não? mas inabalável ela continua: você pode pelo menos mandar cartões-postais de lá, para que as pessoas pensem nossa, como é que ele foi parar em Sri Lanka, que cara louco esse, hein, e morram saudade, não é isso que te importa?”. A gente consegue perceber o rancor, a ironia. Trata-se de um “casal” que, depois de tentar de todas as formas, “decidi”, enfim, pela separação, que só seria possível se um dos dois desaparecesse ou, no caso, se mandasse para o Sri Lanka.
"Mas tentamos tudo, eu digo, e ela diz que sim, claaaaaaro, tentamos tudo, inclusive trepar, porque tantos livros emprestados, tantos filmes vistos juntos, tantos pontos de vista sociopolíticos existenciais e bababá em comum só podiam era dar mesmo nisso: cama. Realmente tentamos, mas foi uma bosta. Que foi que aconteceu, que foi meu deus que aconteceu, eu pensava depois acendendo um cigarro no outro e não queria lembrar, mas não me saía da cabeça o teu pau murcho e os bicos dos meus seios que nem sequer ficaram duros”. Ela, num misto de mágoa e ódio, desabafa, põe tudo em cima dele, como se fosse um rio, como se exorcizasse um demônio.
Mas, depois de golpeá-lo, ela muda o tom, e passa a falar do seu próprio fracasso e, na medida em que revela suas derrotas, revela, também, a derrota de uma época (?): “Podia ter dado certo entre a gente, ou não, eu nem sei o que é dar certo, mas naquele tempo você ainda não tinha se decidido a dar o rabo nem eu a lamber boceta, ai que gracinha nossos livrinhos de Marx, depois de Marcuse, depois Reich, depois Castañeda, depois Laing embaixo do braço, aqueles sonhos todos colonizados nas cabecinhas idiotas, bolsas na Sorbonne, chás com Simone e Jean-Paul nos 50 em Paris, 60 em Londres ouvindo Beatles, 70 em Nova York dançando disco-music no Studio 54, 80 a gente aqui mastigando esta coisa porca sem conseguir engolir nem cuspir fora nem esquecer esse azedo na boca”.
Não havia no que se segurar, o mundo estava desabando e o melhor já havia passado. Restava sobreviver; sobreviver e só: “[...] claro que deve haver alguma espécie de dignidade nisso tudo, a questão é onde, não nesta cidade escura, não neste planeta podre e pobre, dentro de mim? ora não me venha com autoconhecimentos-redentores, já sei tudo de mim, tomei mais de cinquenta ácidos, fiz seis anos de análise, já pirei de clínica, lembra? você me levava maçãs argentinas e fotonovelas italianas”. Parece até que eles se gostavam, parece até que eles tentaram de verdade, só que, não deu. Não deu; as vezes não dá.
"[...] caímos exatamente na mesma ratoeira, a única diferença é que você pensa que pode escapar” – ela sentencia. “[...] mas não se preocupe, não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem coisa mais autodestrutiva do que insistir sem fé nenhuma?”
Seria o fim ou apenas um novo recomeço? Estaríamos vivos ou seríamos apenas os sobreviventes de uma catástrofe? Não sei, as perguntas nem sempre possuem respostas. “[...] ela puxa a descarga e vai me empurrando para a sala, para a porta, pedindo que me vá, e me expulsa para o corredor repetindo não se esqueça então de me mandar aquele cartão do Sri Lanka [...] que aconteça alguma coisa bem bonita com você, ela diz, te desejo uma fé enorme, em qualquer coisa, não importa o quê, como aquela fé que a gente teve um dia, me deseja também uma coisa bem bonita, uma coisa qualquer maravilhosa, que me faça acreditar em tudo de novo, que nos faça acreditar em tudo outra vez, que leve pra longe da minha boca este gosto podre de fracasso, este travo de derrota sem nobreza, não tem jeito, companheiro, nos perdemos no meio da estrada e nunca tivemos mapa algum, ninguém dá mais carona e a noite já vem chegando. A chave gira na porta”.

[ABREU, Caio Fernando. Morangos Mofados. In: Os Sobreviventes. Rio de Janeiro: 11°ed., Nova Fronteira, 2009, págs 25-29]

Um comentário:

  1. "Já li tudo, cara, já tentei macrobiótica psicanálise drogas acupuntura suicídio ioga dança natação cooper astrologia patins marxismo candomblé boate gay ecologia, sobrou só esse nó no peito, agora faço o quê?" (Caio Fernando, in: Os Sobreviventes).

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