domingo, 1 de fevereiro de 2015

Carona para o Trabalho

Quando saía para o trabalho, às cinco e meia da manhã, meu tio chegou.
- Aonde tu vai? – me perguntou, feliz.
- Trabalhar.
- Espera aí que eu te levo lá – ele estava de carona com um amigo.
Abri o portão e encontrei um homem escorado num Fiat Uno, segurando uma latinha de cerveja. Amistosamente, o homem, que se chamava Vanderlei, me cumprimentou:
- Tu é filho do Alemão?
- Sobrinho.
- Eu vou te dizer uma coisa, pessoa igual ao teu tio não existe, sempre que precisei do Alemão ele me ajudou, é um grande amigo, um grande homem, pra te dizer bem a verdade – ergueu o dedo – eu considero o teu tio como se fosse um irmão pra mim...
- Ele vai pra França, não é? – disse, pra mudar o foco do assunto.
- Merece... – e virou outro gole.
Neste momento mesmo, o portão se abriu:
- Diego, tu não empresta este moletom pro tio? – e me mostrou a blusa – semana que vem eu volto pra pegar o passaporte e te devolvo...
- Empresto – eu sabia que ele jamais me devolveria.
Embarcamos no carro e partimos.

- A mãe pensou que eu tivesse gastado o dinheiro da passagem...
- Quando tu vai, tio?
- Como é meu último dia em Torres, aproveitei pra festejar com os amigos – completou.
O carro seguia.
- Quando tu vai, tio? – repeti.
- Eu embarco hoje às duas da tarde em Porte Alegre e chego em São Paulo às oito da manhã.
- Um dia!
- Mas até lá – emendou – eu vou beber mais umas trinta gelada. E como eu não sou bobo – cutucou o Vanderlei – vou comprando de quatro em quatro, pra não esquentá – e começaram a rir.

Na tarde do dia anterior, eu e o meu tio havíamos conversado sobre a sua vida.
- E os teus quatro filhos?
- Eles não vão passar necessidade...
Seu pai fizera a mesma coisa com a minha avó; a história se repetia.
- Eu sei que eu sou errado – dizia, chorando – mas o que que eu vou fazer se eu vivo com uma mulher que eu não amo?

O carro dobrou a esquina.
Meu tio bebeu um gole enorme:
- Como dizia um amigo meu “se tu tá no inferno, dá um abraço no Diabo” – e deu risada.
...
- É aqui Vanderlei! – o carro estacionou, eu disse.
Estava cinco minutos atrasado.

Na cozinha do hotel os funcionários trabalhavam em silêncio: o Jonathan fatiava abacaxis, a Jane espremia laranjas, a Tia Neuza assava pães.
Não havia tempo para tentar entender, comecei a fatiar queijo.

Um comentário:

  1. “Se tu tá no inferno, dá um abraço no Diabo” – e deu risada.

    Filosofia.

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