domingo, 16 de novembro de 2014

A poesia como instrumento de revolução

No documentário “Ervilha da Fantasia”, de Werner Schumann, Paulo Leminski diz que “a poesia não possui uma razão de ser, um porquê”. Eu discordo - pra mim a poesia deve estar comprometida com a formação crítica do leitor.
A poesia não pode ser apenas rima ou trocadilhos ou sentimentalidades a arrancar suspiros de moças apaixonadas, a poesia deve ser, sobretudo, reflexão. A poesia deve ser um instrumento de transformação da sociedade, deve ser o ponto-de-encontro das massas oprimidas, deve fundir-se à vida e à política, deve romper fronteiras, deve entender que o leitor é mais do que um mero consumidor, é um cidadão.
No movimento artístico “Poema/Processo”, desenvolvido no período de 1967 a 1972, o signo verbal perde suas particularidades lógico-semânticas e dá lugar à visualidade pura, criando a possibilidade de uma linguagem e comunicação universais, isto é, procura-se criar um objeto artístico reprodutível que ultrapasse o texto, que seja tão ampliado que possa denominar uma passeata ou uma performance social. Entretanto, ao separar o que é língua de linguagem, a palavra passa a desempenhar um papel secundário, o que, na minha opinião, acaba restringindo a capacidade fundamental do poema, qual seja, a de verbalizar o mundo.
Enfim, como afirmou a poeta portuguesa Sophia Andersen: “É a poesia que desaliena, que funda a desalienação, que estabelece a relação inteira do homem consigo próprio, com os outros, e com a vida, com o mundo e com as coisas. E onde não existir essa relação primordial limpa e justa, essa busca de uma relação limpa e justa, essa verdade das coisas, nunca a revolução será real [...]. Compete à poesia, que é por sua natureza liberdade e libertação, inspirar e profetizar os caminhos [...]” (p.78).

[ANDERSEN, Sophia de Mello Breyner. Poesia e Revolução. In:_______ O Nome das Coisas. Lisboa: Moraes Editores, 1977]

2 comentários:

  1. Um belo exemplo que poema que é revolução:

    Democracia do Século XX

    Os Estados Unidos prometem recursos para a América Latina.
    O gesto foi antes de tudo um ataque à imagem do venezuelano Chavez.
    E os nossos ditos especialistas dizem que "não é suficiente, é preciso mais",
    Como se fosse mesmo o interesse dos Estados Unidos
    Curar as doenças que enfraquecem o nosso povo,
    Abrigar a massa de miseráveis que nosso governo denomina "o povo"
    E bifurcar as línguas de nossas crianças.
    Senhores, não é interesse do norte limpar as manchas na credibilidade latina,
    Porque simplesmente isso não serve aos propósitos.
    O que acontece é uma guerra pelos estômagos, corações e cérebros do povo:
    De um lado o cristo doente que empunha a cruz desenterrada da merda
    E de outro o louco raivoso que morde e baba e rosna e se contorce.
    Chafurdaremos no lodo se tomarmos um partido
    Ou ruminaremos pasto por anos se tomarmos outro.
    E ficai felizes, senhores, por ser-vos concedido o benefício da escolha.
    A isso chamam democracia.
    Ou os restos dela.

    (Rama Si)

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  2. Dito isto, é importante ressaltar que a Arte, independentemente do tipo adotado, se torna mais interessante quando é capaz de: i) fugir da “beleza por si só”; ii) fazer pensar; iii) fazer pensar sem infringir os direitos humanos.
    O poema abaixo atinge todos estes parâmetros, apesar de ter sido escrito por um menino da quarta série do Ensino Fundamental:

    Pode Ter

    Pode ter compaixão no inferno.
    Pode ter vida no espaço.
    Pode ter eternidade na vida.
    Pode ter luz no escuro.
    Pode ter som no rádio.
    Pode ter cores no branco.
    Então por que as guerras, as lutas e brigas,
    Se pode ter paz na humanidade?

    (G.W. A., 10 anos)

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