sábado, 18 de outubro de 2014

Tempos mediocres

Vivemos numa época de facilidades. Qualquer pessoa, inclusive um operário, é capaz de comprar um tablet, uma moto, uma passagem de avião ou até mesmo um carro. Em função destas facilidades, o senso comum acredita estar vivendo no melhor dos mundos possíveis, o que é uma grande mentira. Se, por um lado, progredimos absurdamente em termos materiais e tecnológicos, por outro, continuamos estagnados em termos espirituais e humanos, prova disso é a crônica crise existencial do indivíduo, caracterizada pela descrença religiosa e política, e o imenso abismo socioeconômico que separa os povos.
Em outras palavras,vivemos num mundo extremamente defeituoso, bem distante daquele pretendido pela perfeição do cinema romântico. Bukowski sabia disto. Em seu conto intitulado “A morte do pai II” ele nos revela a impressionante mediocridade de nossa época, a derradeira e fatal mediocridade que nos corrói, dos pés à cabeça, sem que desconfiemos de nada: “Minha mãe morrera um ano antes. Uma semana após a morte de meu pai, eu estava na casa dele sozinho [...]. Eu era desconhecido para os vizinhos. O funeral acabara, e eu me dirigi à pia, enchi um copo d’água, bebi-o, depois sai. Sem saber que outra coisa fazer, peguei a mangueira e comecei a aguar os arbustos. Cortinas correram enquanto eu estava parado no gramado da frente. Depois eles começaram a sair de suas casas. Uma mulher veio do outro lado da rua.
- Você é Henry? – ela me perguntou.
Respondi-lhe que era Henry.
- Conhecíamos seu pai há anos.
Aí o marido aproximou-se.
- Conhecemos sua mãe também – ele disse.
Eu me curvei e fechei a mangueira.
- Não querem entrar? – perguntei.
Eles se apresentaram como Tom e Nellie Miller, e entramos em casa.
- Você é a cara do seu pai.
- É, é o que dizem.
Sentamo-nos e ficamos olhando uns para os outros.
- Oh – disse a mulher  -, ele tinha tantos quadros. Devia gostar de quadros.
- É, gostava, né?
- Eu adoro aquele quadro do moinho no pôr do sol.
- Pode ficar com ele.
- Oh, posso?
A campainha tocou. Eram os Gibsons. Eles me disseram que também tinham sido vizinhos de meu pai durante anos.
- Você é a cara do seu pai – disse a Srs. Gibson.
- Henry nos deu o quadro do moinho.
- Isso é ótimo. Eu adoro aquele quadro do cavalo azul.
- Pode ficar com ele, Sra Gibson.
- Oh, não está falando sério.
- Sim, está tudo bem.
A campainha tornou a tocar, e outro casal entrou” (p.171-172).
Por falta do que fazer, as pessoas iam entrando na casa. Mas, ao invés de se compadecerem com o luto, se interessavam pelos objetos materiais, ao invés de se preocuparem em oferecer – um abraço, um consolo, uma palavra amiga – se interessavam pelo que poderiam levar embora.
“- Tem uma torradeira aí, não tem, Henry?
Levaram a torradeira.
- Não precisa dos pratos, precisa?
- Não.
- E da prataria?
- Não.
- E da chaleira e do liquidificador?
- Levem.
Uma das senhoras abriu um armário na varanda dos fundos.
- E todas essas frutas em conserva?”(p.173)
Levaram até as frutas em conserva.

[BUKOWSKI, Charles. Numa Fria. Editora: L&PM Pocket, Porto Alegre, 2013]

3 comentários:

  1. "O homem é um animal racional. Racional, às vezes; animal, quase sempre" (Walther Waeny).

    "O mundo é uma república de mediocridades - e sempre foi" (Thomas Carlyle).

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  2. Uma questão interessante quando se perde alguém próximo na família como a mãe ou o pai é que você amplia o seu campo de percepção das coisas. Você percebe o nível de sensibilidade das pessoas à sua volta. Quem se importa menos, quem se importa mais, quem se importa com grana, quem se importa com o bem estar, enfim... Não se trata de se importar com você, mas o quanto de valor as pessoas, de um modo geral, empregam nas coisas que a cercam. Tem uma frase dessas de facebook que gosto muito e diz assim: "Quando Pedro me fala de Paulo, conheço mais de Pedro do que de Paulo". E tecendo uma analogia com o assunto em questão digo que quando se pode observar as reações, inerte pela ineficiência que a tristeza e a dor da perda proporcionam, as conclusões quanto ao caráter dessas pessoas se fazem de maneira íntegra e fiel. Bukowski sabia das coisas, por isso ele não era só um "velho safado". Abração amigo-irmão!

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  3. Para a sociedade você vale o que você tem, não o que você é realmente. Sociedade moderna hipócrita!

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