quinta-feira, 5 de junho de 2014

Quem será o próximo?

Não é fácil julgar pessoas, afinal, como diz o ditado, “nem Jesus agradou a todos”. Mas, em função das situações se repetirem e da gente ser maior de idade, dizer o que se pensa à respeito do comportamento de determinados sujeitos não é nenhum crime.
Antes de qualquer coisa, gostaria de dizer que não sou moralista, ou seja, não penso em termos de “certo ou errado” e, portanto, me permito “sair do molde” que a sociedade conservadora impõe; também não sou liberal, pois os liberais não seguem regra nenhuma, e eu, mesmo não sendo um moralista, sigo algumas regras, por exemplo, escovar os dentes. Em resumo, a palavra “flexível” é a que me define melhor.
Mas a grande maioria das pessoas (pra não dizer a totalidade), pratica o moralismo. Mas não é aquele moralismo bíblico – que respeita o pai, que respeita a mãe, que cumprimenta o vizinho e teme a Deus – é um moralismo fajuto, made in Paraguai, pau-no-cú. (Com um exemplo vai ficar mais fácil de entender). Trabalho num banco, numa agência de médio porte, com outros 26 colegas. Com uns a gente se dá, com outros não, faz parte. Na última semana, porém, dois destes colegas, dois gerentes, diga-se de passagem, se comportaram, em relação a mim, de uma maneira muito vil. A situação aconteceu duas vezes, em oportunidades distintas. Na primeira vez, ao me ver, o sujeito virou o rosto, de propósito; na segunda, ao passar por mim, o sujeito baixou o rosto; em ambas ocasiões a intenção era “evitar o contato”, ignorar e, até, atingir. O pior de tudo é que não havia um motivo que justificasse aquilo, pois se houvesse acontecido alguma coisa, alguma discussão, algum desentendimento, a gente até entenderia.
Mas eu não consegui entender: como o gerente de um banco, que, para a sociedade, é alguém importante e respeitável, pôde ser capaz de um ato tão pau-no-cú? como o gerente de um banco, um “cara cheio de moral”, pôde ser capaz de um gesto tão baixo?

Por isso é que eu leio Bukowski:
“- Não foi à polícia? – perguntou o garçom.
- Bem, você sabe, Carl, é difícil... eles meio que me adotaram na família. Não é como se tentassem esconder alguma coisa de mim.
- Do jeito que eu vejo, você é cúmplice de um assassinato.
- Mas o que eu passei a pensar, Carl, é que aquele pessoal na verdade não parece ser gente má. Já vi pessoas que antipatizo muito mais e que nunca mataram nada. Não sei, é realmente confuso. Até penso no cara do freezer como uma espécie de grande coelho congelado...
O garçom puxou a Luger de trás do balcão a apontou-a para Mel.
- Tudo bem – disse - fique paradinho aí enquanto eu chamo a polícia.
- Escuta, Carl... não é você que tem de decidir isso.
- O diabo que não sou! Eu sou um cidadão! Vocês babacas não podem simplesmente sair por aí matando e metendo gente em freezers. Eu posso ser o próximo!
[...]
Carl estendeu o braço para a esquerda e puxou o telefone, que estava no balcão. Quando fez isso, Mel pegou a garrafa de cerveja e atingiu-o no meio do rosto com ela. Carl deixou cair a arma [...]. Mel pegou a Luger, mirou com cuidado, apertou o gatilho uma vez, depois guardou a arma numa sacola de papel pardo [...] dirigiu-se à porta e ganhou o boulevard” (p.63-64).

[BUKOWSKI, Charles. Numa Fria. Editora: L&PM Pocket, Porto Alegre, 2013]

Um comentário:

  1. Todo mundo tem seus dias difíceis, todo mundo merece uma segunda chance, mas, quando as coisas se repetem e se repetem e se repetem, é porque não se trata de um dia difícil, nem de falta de oportunidade, mas de uma "humanidade estabelecida", de uma humanidade que se constroe pelo desprezo ao próximo, pisando no pescoço da própria mãe.

    Para que o mundo melhore, é importante que as "pessoas justas" não permitam que isso se repita.

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