sexta-feira, 13 de junho de 2014

Farelos de Fatos

Abri a obra “Um amigo de Kafka”, de Isaac Bashevis Singer, vencedor do Prêmio Nobel de 1978, e escolhi um conto para ler. O primeiro parágrafo, no entanto, não me agradou, nem o segundo, nem o terceiro... achei o texto meio “ideologizado demais”; mesmo assim segui e, apesar de não ter gostado do estilo do escritor, selecionei algumas passagens marcantes, que me fizeram refletir.
Depois de duas páginas, a música “Imagine” me veio à cabeça, as ideias de John Lennon – “um mundo sem fronteiras”, “sem religião”, “uma irmandade de pessoas” – tudo isso me veio à cabeça, quando li esse trecho do livro: “[...] afinal, o que é um filho? O que torna o meu sêmen mais meu do que o de outra pessoa? Qual é o valor de uma ligação de carne e sangue? Somos todos espuma do mesmo caldeirão. Retroceda algumas gerações e toda essa multidão de estranhos provavelmente teve um avô em comum. E daqui a duas ou três gerações, os descendentes desses que são parentes agora serão estranhos. É tudo temporário e passageiro: somos bolhas do mesmo oceano [...]. Se não se pode amar todo o mundo, não se deve amar ninguém” (p.252).
Só que tudo isso é muito utópico, a realidade que a gente vive não tem essa poesia toda. Crianças de três anos são molestadas por pedófilos; na Idade Média, inocentes foram queimados na fogueira; Jesus Cristo foi crucificado; na África, ainda hoje, muita gente morre de fome; parafraseando Belchior, “nem tudo é divino, nem tudo é maravilhoso”. Então, como se soubesse disso, Isaac Singer disse: “Raciocinei que no caos existem leis precisas. Os mortos continuam mortos. Os vivos têm suas recordações, cálculos e projetos. Em alguma vala da Polônia se encontram as cinzas dos que foram queimados. Na Alemanha, os antigos nazistas estão deitados em suas camas, cada qual com a sua lista de assassinatos, torturas, estupros. Em algum lugar deve existir um Onisciente que conhece os pensamentos de cada ser humano, que conhece as dores de cada mosca, que conhece cada cometa e meteoro, cada molécula da mais distante galáxia. Dirigi-me a ele. Bom, Todo-Poderoso Onisciente, para o senhor tudo é justo. Conhece o todo e possui todas as informações... e é por isso que é tão esperto. Mas o que vou fazer com os meus farelos de fatos?” (p.253).

[SINGER, Isaac Bashevis. Um amigo de Kafka. In: O Filho. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2008. Tradução de Lia Wyler]

Um comentário:

  1. Farelos de fatos: mais um dia, um telefonema, um cumprimento, o vizinho que passa, um dia de trabalho, os programas de televisão, cachorros, gatos, carros, tudo isso e mais um pouco, misturado, se misturando, a vida.

    Como encontrar
    a agulha de um fato
    em um palheiro de metáforas?

    ResponderExcluir