sexta-feira, 9 de maio de 2014

Senna como Consciência de Mundo

Airton Senna não foi apenas um piloto de F-1, ele foi muito mais do que isso, Airton Senna foi um herói. Ele não corria apenas contra seus adversários, fora das pistas Senna enfrentava os políticos, os patrocinadores, enfim, poderosos de todas as espécies, a “cede pelo dinheiro”, a prática antidesportiva, e, mais do que isso, o fato de ser tupiniquim, de ser um “da Silva”, numa época em que o país enfrentava problemas socioeconômicos gravíssimos, numa época em que ser brasileiro era motivo de vergonha. Mas Airton não se intimidou, venceu dentro e fora da pista e, na volta após a bandeirada, exibiu a bandeira verde e amarela, com orgulho, para que todos – ricos, pobres, negros, brancos, sulistas, nortistas, cristãos, muçulmanos, pilotos de corrida, advogados, médicos, jogadores de futebol, adultos, crianças, idosos, homens, mulheres – todos, sem tirar nem pôr, soubessem quem ele era: uma consciência de mundo.
Sim, alguém que possuía amor pela verdade, que era capaz de enxergar além das aparências, que era capaz de pensar em termos coletivos, que era capaz de ultrapassar os limites do inimaginável, que era capaz de suportar muito mais do que se pode suportar, alguém que era carregado nos braços pelo povo, alguém que era a própria esperança do povo, o motivo de orgulho de uma nação, a matriz-energética do pai de família – que acorda cedo todos os dias e sai em busca do sustento, que volta cansado à noite, que não descansa no feriado, que apenas sobrevive, mas que tem fé na vitória – alguém que era um exemplo para a humanidade, alguém que, como diz a Bíblia, era capaz de mover montanhas.
Em 1989, no Japão, se Alain Prost ganhasse a corrida ganharia o campeonato; na largada, Senna caiu pra segundo, mas, implacavelmente, perseguiu o francês, volta por volta, palmo por palmo, milésimo por milésimo, até que a oportunidade apareceu; Airton retardou a freiada e, após a curva à direita, ultrapassaria Prost, o adversário, no entanto, propositalmente deixou que seu carro se chocasse contra o do brasileiro e os dois saíram da pista; Senna ainda conseguiria voltar, amparado pelos fiscais de prova que empurraram a sua McLaren rumo a uma vitória sensacional; porém, nos bastidores, devido a uma decisão política, Airton foi desclassificado e o título acabou ficando com o francês. A má-fé do adversário não havia sido levada em conta, era uma escolha contra o esporte; Balestre, que comandava a organização na época, era amigo pessoal de Alain e, com a intenção de “dar uma lição definitiva” no brasileiro, ainda o ameaçou com a suspensão do campeonato mundial de 1990, caso Senna não se desculpasse publicamente com todos, além de uma multa de 100 mil dólares. Airton, então, pensou em abandonar a F-1 – não lhe cabia o papel de idiota. E o teria feito se o dono de sua equipe, Ron Dennis, não tivesse inventado uma maneira de contornar a situação através de uma “nota oficial”, onde, supostamente o brasileiro se desculpava. Era mentira.
A resposta verdadeira viria na pista; o quadro parecia obra dos deuses: um ano depois, no Japão outra vez, na mesma curva, o mesmo acidente, e os dois carros – a Ferrari de Prost e a McLaren de Senna – ficaram atolados na caixa de brita, só que, dessa vez, o título era nosso. “Aqui se faz, aqui se paga” – Airton dera o troco.
O narrador televisivo, no auge da emoção, descreveu o episódio, logo após o choque:
- Senna sai do carro... e dá as costas pra Prost.
Parecia uma história de cinema, mas era real: o Brasil comemorava; o mundo inteiro comemorava.

[Inspirado no documentário Senna: o brasileiro, o herói, o campeão. Direção de Asif Kapadia e roteiro de Manish Pandey, 2010]

2 comentários:

  1. Senna foi, em determinado momento, a consciência do mundo, assim como o foram John Lennon, Gandhi, Pelé, os Beatles, Gabriel García Marquez, Keynes...

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  2. Quando Senna saiu do carro e deu as costas pra Prost, ele não deu as costas somente para o seu adversário, mas, também, para todo o esquema de interesse que havia nos bastidores: só um herói seria capaz disso.

    Nota: Balestre havia sido membro do exército nazista de Hitler durante a Segunda Guerra Mundial.

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