sábado, 17 de maio de 2014

O que penso eu do mundo?

Penso muitas coisas, obviamente. Quantas destas coisas são importantes eu não sei, mas como todo bom cidadão – que vai à missa aos domingos, que guarda dinheiro no banco, que ainda escreve cartas românticas – vou abrir o debate.
Pois bem, eu penso que esta vida computadorizada, esta vida das redes sociais, esta vida de “mercadorias de todos os tipos” nos rouba a paz, os encontros interiores; as coisas, nesse ambiente ultra-tecnológico, se lançam umas contras’outras, não se pode mais ficar parado, não se pode mais observar, não se tem mais sossego, portanto, penso eu, que, muito mais saudável do que seguir as regras desumanas impostas pelo sistema, é sair para tomar um café; aliás, comer é um prazer sem fim, ter um amigo, conversar, dar risadas, recordar a infância, ler livros, assistir um filme, praticar esportes, namorar... mesmo sabendo que nem tudo são rosas.
Pensar no mundo é como pensar em razões e fins. Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa, sabia disso. Para ele:

Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas coisas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais do que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.
[...]

A vida é assim; e quando a resposta se esconde, o melhor é não pensar, é mudar o foco, é relaxar, então, depois de um bom tempo, quando a gente já nem se lembra mais daquele problema antigo, a resposta chega, sem avisar, sem bater à porta, levando embora aquela dúvida cruel, aliviando o sobrepeso; às vezes é assim que o mundo funciona.

O mistério das coisas? Sei lá o que é o mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
[...]

[PESSOA, Fernando. Poesia Completa de Alberto Caeiro. In: Guardador de Rebanhos ( Poema V). São Paulo, Companhia das Letras, 2005, p.23-25]

Um comentário:

  1. O que penso eu do mundo?

    “Penso logo existo” (Descartes)

    “A existência precede a essência” (Sartre)

    "Não sei. Pra mim pensar nisso é fechar os olhos" (Fernando Pessoa)

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