sábado, 24 de maio de 2014

O Mundo Sem Teorias

A gente liga a tevê e a formalidade habitual dos noticiários avisa, em tom profético: “devido à globalização, um problema na economia de um determinado país pode afetar a economia como um todo”. Mas, para Dona Teodolina, que hoje completará 70 anos, isso é conversa fiada; para ela, o único problema que pode haver é nome-feio, é um filho não aparecer pro almoço de domingo, é mãe solteira. Para Dona Teodolina, não há relação alguma entre a vida que se leva e o mercado financeiro global.
Na esquina, a mesma coisa. Quando as vendas pioram, Seu Zé, dono de barraquinha de cachorro-quente, diz, nas conversas surgidas por acaso, que antigamente se vendia mais, que o preço das coisas subiu muito, diz, como quem diz o que pensa, pra chamar clientes, e, no auge do debate, Seu Zé se arrisca e sentencia “a crise vai acabar com os negócios”. O cliente não sabe, mas Seu Zé sabe – amanhã a conversa continua, amanhã mais um cachorro sai.
Na universidade, o professor discursa sobre o chamado “pensamento científico”, mas o aluno, com a autonomia de quem ainda é jovem, formula suas próprias teses, baseadas no conhecimento prático, ou na leitura dos livros não-convencionais.
No fundo, pouco importa se os investidores estão sujeitos ao risco associado à interdependência entre os diversos mercados financeiros capitalistas, pois isso não é palpável, não é tangível; no fundo, o que Dona Teodolina, Seu Zé e os universitários querem é viver a vida, tocar, sentir, cada um a seu modo, agora, nesse exato momento, sem a interferência de vozes do além.

Jack Kerouac falava sobre estas coisas, sem necessariamente tocar no assunto: “O bar ideal não existe na América. Um bar ideal é algo fora do nosso alcance. Em 1910 um bar era um lugar onde os homens iam se encontrar durante ou depois do trabalho e tudo o que havia era um longo balcão, corrimãos de metal, escarradeiras, uma pianola para o fundo musical, uns espelhos e barris de uísque a dez centavos a dose ao lado de barris de cerveja a cinco centavos a caneca. Agora tudo o que há são enfeites cromados, mulheres bêbadas, veados, barmens hostis, proprietários angustiados espreitando nas portas preocupados com seus bancos de couro e com a polícia; gritaria em momentos inoportunos e um silêncio mortal quando entra um estranho” (p.282).

[KEROUAC, Jack. Pé na Estrada. Porto Alegre: L&PM POCKET, 2011. Tradução de Eduardo Bueno e Lúcia Brito]

2 comentários:

  1. Belíssimo: "Na universidade, o professor discursa sobre o chamado 'pensamento científico', mas o aluno, com a autonomia de quem ainda é jovem, formula suas próprias teses, baseadas no conhecimento prático, ou na leitura dos livros não-convencionais".

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  2. Como diria Carlos Drummond de Andrade:

    "Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
    A vida apenas, sem mistificação".

    Sem teorias...

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